domingo, 20 de junho de 2021

20 de Junho 2021 - Dia Mundial do Refugiado

 


Menino Sírio


    Com as férias de natal quase a terminar, a diretora convocou a comissão de pais para uma reunião. O assunto era delicado. O segundo período ia começar e Omar, um menino sírio de nove anos de idade, ia frequentar aquela escola.

    Há quatro anos que a sua família tinha chegado a Portugal, depois de abandonar a metade da sua casa que não tinha sido destruída por um engenho explosivo, num episódio de terror no bairro onde moravam numa pequena cidade da Síria. Podia ter acontecido ainda em pior hora do que aquela, em que toda a família estava no funeral de um adolescente, também ele vítima de uma das milhões de balas enviadas para aquela guerra, cada uma destinada a roubar uma vida que pode ser a de uma criança, uma mãe, um idoso ou um soldado obrigado a combater por algo que não compreende.

    Depois de enfrentar percursos penosos e muito arriscados por terra e por mar, aquela família sobreviveu, ao contrário de tantos com pior sorte que acabam sepultados no Mediterrâneo. Finalmente pisaram solo europeu, onde respiraram paz, mas não muita, não a suficiente, não aquela a que têm direito. Estavam longe do medo das explosões, das balas perdidas e dos gases químicos, covardemente silenciosos, mas letais, mas a guerra para eles ia continuar.

    A presença desta família foi sendo recusada por onde paravam, constantemente empurrada até chegar a Portugal, de onde não tinha meios para avançar mais. Antes das malditas armas e o fanatismo que os obrigou fugir do seu lugar, das suas raízes, para começar tudo de novo, a mãe do Omar trabalhava numa farmácia e o pai era empregado bancário. Não eram ricos, mas tinham o suficiente para viverem confortavelmente e felizes. Mas as malditas guerras são cruéis, sobretudo para os inocentes e frágeis, e foi assim que uma criança que vivia a milhares de quilómetros, num país com hábitos, língua e culturas tão diferentes, chegou à escola daquela pequena vila.

    Nas primeiras semanas em solo português, sobreviveram graças a uma organização de apoio a refugiados, enquanto procuravam emprego e um lugar para viverem. Percorreram dezenas de aldeias, vilas e cidades e perderam a conta do número de portas onde bateram.

    Mas num país, onde a maior celebração anual é o nascimento de uma Criança num curral por não ter sido concedido melhor abrigo aos seus pais numa terra onde eram forasteiros, foi ainda maior o número de portas fechadas a outro casal com uma criança do sexo masculino, curiosamente fugidos de terras que não ficam muito distantes dessa onde, há dois mil anos, a Sagrada Família também teve que fugir da sua terra para salvar o Filho do rei Herodes. «Viste-me nu e vestiste-me; Tive fome e deste-me de comer.» Bem prega Frei Tomás, pois num lugar onde todos rezam estas palavras, ignoravam-nas na presença de Omar e seus pais que não tinham mais para onde ir, pois o próximo país ficava a milhares de milhas do outro lado do imenso oceano. «Ficámos por aqui, alguma solução surgirá.» decidia o chefe daquela família ao mesmo tempo que tentava serenar a esposa e o filho.

    Depois de conseguir a equivalência da sua licença de condução, o pai acabou por encontrar emprego como camionista. O salário não dava para o conforto a que vinham habituados antes da guerra, mas já havia algum sustento. No entanto, a adaptação continuava difícil, sobretudo para o pequeno Omar, que não tinha feito um único amigo desde que se meteram num barco frágil, com vinte vezes o número de passageiros que tinha capacidade para transportar, e aventuraram-se naquela arriscada travessia até à costa do outro lado do Mediterrâneo.


    A data da reunião na escola chegou e o discurso da diretora foi encaminhado para os comportamentos racistas e xenófobos que caíam sobre aquela criança a quem os pais salvaram do terror da guerra. Fugiram do seu próprio país para suportarem, não apenas as saudades, mas também a dor de saberem que, muito provavelmente, nunca mais poderiam lá voltar, nunca mais iriam pisar o chão pátrio, nunca mais estariam numa terra que fosse sua, seriam estrangeiros todo o resto das suas vidas.

    Era doloroso sentir esta realidade, mas seria pior não estarem longe das armas que, todos os dias, tantas vidas de inocentes roubavam. Algumas podiam ser as de amigos ou familiares seus. Mas nas notícias não havia como saber quem eram, apenas quantos eram, como se as vítimas da guerra tivessem números e não nomes. Tinham conseguido escapar daquele terror, mas tinham dificuldades em proteger o filho desta nova guerra num continente que se diz viver uma época de paz.

    Após uma conversa com estes pais, preocupados com esta nova tentativa de colocar o filho num ambiente onde ele pudesse crescer e aprender, sendo tratado como todas as crianças merecem, a diretora estava alertada para esta situação que se verificara em várias escolas que ele já tinha frequentado, onde raramente repetia dois períodos escolares, aumentando assim as dificuldades de adaptação, não apenas para o aluno mas para toda a família.

    A reunião podia ter corrido melhor. Alguns comentários, em parte promovidos pelo facto de se realizar após o jantar e há sempre quem a essa hora já não esteja a falar sozinho: «que vão para a terra deles!»; «rua com essa gente!»; «ai deles se nos vem tirar o sossego!».Apesar destas opiniões, vomitadas por um ou outro apedeuta e logo abafadas pela sensatez dos restantes, ainda que em alguns casos apenas em teoria, no final todos saíram preparados para acolher os novos vizinhos e, sobretudo, para orientar os filhos a tratar bem o novo amigo que ia chegar à escola quando as aulas retomassem.

    Na semana seguinte, na turma do quarto ano, todos queriam fazer par na carteira com o recém-chegado. Quando ele disse que se chamava Omar, quase recebeu aplausos e todos disseram que tinha um nome bonito. Não só o nome, mas também gostavam das roupas, roupas que lhe tinham sido oferecidas em Portugal e qualquer outro menino podia vestir: «ficam-te bem essas cores.» e o cabelo, que também podia ser o cabelo de qualquer outro menino daquela turma: «cabelo bonito, tão brilhante...» e os olhos: «olhos lindos, escurinhos, parecem azeitonas...»

    No recreio, todos queriam ser da equipa do Omar, todos lhe passavam a bola, deixaram-no marcar um penaltie que o guarda-redes adversário defendeu, contra a vontade dos restantes companheiros da brincadeira que se zangaram com ele e até obrigaram a repetir, indo outro menino à baliza para garantir que desta vez a bola batia mesmo nas redes. «força, Omar.»; «boa, Omar.»; «grande golo, Omar.» e todos festejaram, menos o Omar.

    Na hora do lanche, o Omar trazia um pão com queijo e uma maçã e os outros meninos queriam comer junto dele e dar-lhe a provar as coisas que as mães portuguesas sabem colocar na marmita dos filhos, tais como pão com queijo ou fiambre e peças de fruta como peras, bananas ou maçãs!

    Os dias passavam e o Omar era tratado como uma estrela pelas outras crianças que, chegadas a casa, a primeira pergunta dos pais era se tinham tratado bem o menino sírio, ou o menino escurinho, e os filhos respondiam que eram os melhores amigos e brincavam muito com ele.

    Quando o Omar respondia acertadamente a uma pergunta da professora, havia palmas na sala, assim como nas provas de avaliação, em que não necessitava de ter uma nota muito alta para receber os parabéns da turma inteira: «boa Omar, eu sabia que eras capaz.» «estás a ver, Omar, tu até és inteligente!» ou pior ainda: «se nós conseguimos, vós também conseguis!» como se as notas do Omar servissem para avaliar um povo e não apenas um menino que só queria andar na escola e ser tratado como os outros, também todos diferentes uns dos outros, o que não os impedia de serem tratados como iguais.

    Se o Pedro era o mais gordo, o Jaime era ruivo e tinha sardas, a Catarina tinha as pernas e os braços magrinhos e era a mais alta da turma, a Clara era a que tirava sempre as melhores notas e ninguém lhe batia palmas, o Artur gaguejava, a Cristina tinha marcas de uma queimadura num braço, a Milene tinha vindo recentemente da França e tinha sotaque francês bem mais longe do português do que o do Omar, o João era tão pequeno que media pouco mais do que a cintura da Catarina, porque só ele era tratado de forma diferente?

    Todos tinham as suas particularidades físicas e intelectuais e brincavam com isso, em certas alturas até se arreliavam. Mas era de vez em quando, enquanto o Omar, ainda que carinhosamente, era o menino sírio todos os dias.

    Ele não se escondia das suas origens. Sofria por ter familiares num país que mais ninguém na sua turma sabia apontar no mapa, um país que ele próprio quase não tinha nenhuma memória, e viviam no meio do medo e do terror de onde ele fugiu ainda no colo dos seus pais. Não tinha orgulho nem vergonha, era sírio e pronto. Era um menino saudável, tinha pais que o amavam e isso devia ser suficiente para ser feliz. Tinham-lhe transmitido aquele patriotismo na medida certa, sem exageros, com respeito pelos mesmos sentimentos de outros meninos em relação à sua pátria, qualquer que ela seja.

    Se na sua escola uns são franceses, outros suíços, podem ter sardas, ser baixos ou altos ou gordos ou magros ou loiros ou encaracolados, e não há mal nem bem algum nisso, e não estão constantemente a lembrar-lhes: «que sardas lindas!»; «falas tão bem francês!»; «ficas tão lindo por seres magrinho!»; «ficas tão lindo por seres gordinho!»; «és tão engraçado quando gaguejas!», porque razão não havia um dia em que ele não fosse tratado de forma diferente?

    Os pais não lhe faziam muitas perguntas sobre os amigos na escola. Não porque estivessem seguros de que ele era bem tratado, mas era só para não o lembrar dos tempos em que tinha sido dolorosamente rejeitado. No entanto, preocupavam-se muito e estavam atentos.

    Ao contrário das escolas anteriores, nesta, quando o deixavam junto à entrada, os amigos vinham logo ter com ele e, quando o iam buscar, nunca o encontravam sozinho. As notas não eram excelentes, mas estavam na média da turma. Notavam também que os pais das outras crianças não os evitavam. Por vezes parecia mesmo que até lhes davam atenção especial, mas isso podia ser impressão por causa da diferença de tratamento na vila anterior, onde nem uma saudação lhe retribuíam.

    Mas os tempos passavam e já no terceiro período, notavam que o Omar chegava a casa quase em pânico. Mas não desabafava e os pais não compreendiam os motivos daquele estado. Mal comia, deixara de gostar de brincar com os vizinhos e as notas baixavam.

    «Que se estará a passar com o Omar?» questionava o pai.

    «Vou começar a estar mais atenta. É algo na escola, não pode ser outra coisa. Talvez um amigo, algum professor ou outro funcionário.» supunha a mãe.

    Sempre que investigava, não encontrava nada que o pudesse deixar naquele estado. Até que o final do ano letivo se aproximava e a diretora chamou os pais para falar da diminuição de rendimento do menino. Não percebiam como é que ele, quando chegou, não apenas acompanhava os colegas como até superava grande parte deles, e no último período não aprendia da mesma forma e corria o risco de ter que repetir o ano.

    Naquele dia, durante o jantar, tentaram perceber o que se passava. O Omar não queria preocupar os pais. Não queria sentir a culpa de mais uma mudança de casa, ainda por cima, eles estavam ambos empregados, ele motorista de camião, apesar de ser funcionário de um banco antes de fugir para a Europa, e a mãe trabalhava numa empresa textil, uma profissão também diferente da que tinha no seu país.

    Apesar da difícil adaptação, tudo devia estar a dar certo. Mas não estava e o Omar tentava arcar com aquele peso sozinho para não fazer sofrer os pais que, percebendo que o seu menino estava em pânico, insistiram para ele desabafar:

    «Conta-nos Omar. Já passámos muito todos juntos e é assim que vamos estar sempre que alguém desta família necessitar. Conta-nos o que te está a afligir.»

    «Não é nada.» respondeu o menino. «Desculpem. Eu vou estar mais atento nas aulas e estudarei muito a partir de agora. Eu quero passar para o quinto ano e vou conseguir.»

    «Mas porque estás assim? Custa-nos ver-te triste.» insistiu, desta vez, o pai.

    O menino sentiu que não conseguia continuar a esconder que algo o feria e derramou uma cascata de lágrimas. Depois de alguns minutos sem se escutar uma palavra, com os pais, ainda mais preocupados, à espera que ele conseguisse falar, desabafou:

    «Não suporto mais isto. Na outra escola eu ainda me podia defender quando me insultavam, mas aqui não. Aqui não me insultam, mas também não me aceitam. Fingem, tentam, mas não me olham como um deles. Não percebo porque me veem diferente? Eu só quero ser o Omar, tal como o Pedro é o Pedro, a Catarina é a Catarina, o Hugo é o Hugo, a Milene é a Milene... Eu sei que sou estrangeiro. Mas que importância tem isso? Eles também não são todos iguais nem nasceram todos no mesmo país. Não consigo compreender. Ainda que estejam a tentar ser meus amigos, não conseguem. Tratam-me bem, mas é tudo falso. Não quero ser diferente. Quero os mesmos desafios, os mesmos obstáculos e nem me importo de nunca ganhar um jogo. Só quero as mesmas regras dos outros.


autor: Tó de Porto d'Ave

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