domingo, 20 de junho de 2021

20 de Junho 2021 - Dia Mundial do Refugiado

 


Menino Sírio


    Com as férias de natal quase a terminar, a diretora convocou a comissão de pais para uma reunião. O assunto era delicado. O segundo período ia começar e Omar, um menino sírio de nove anos de idade, ia frequentar aquela escola.

    Há quatro anos que a sua família tinha chegado a Portugal, depois de abandonar a metade da sua casa que não tinha sido destruída por um engenho explosivo, num episódio de terror no bairro onde moravam numa pequena cidade da Síria. Podia ter acontecido ainda em pior hora do que aquela, em que toda a família estava no funeral de um adolescente, também ele vítima de uma das milhões de balas enviadas para aquela guerra, cada uma destinada a roubar uma vida que pode ser a de uma criança, uma mãe, um idoso ou um soldado obrigado a combater por algo que não compreende.

    Depois de enfrentar percursos penosos e muito arriscados por terra e por mar, aquela família sobreviveu, ao contrário de tantos com pior sorte que acabam sepultados no Mediterrâneo. Finalmente pisaram solo europeu, onde respiraram paz, mas não muita, não a suficiente, não aquela a que têm direito. Estavam longe do medo das explosões, das balas perdidas e dos gases químicos, covardemente silenciosos, mas letais, mas a guerra para eles ia continuar.

    A presença desta família foi sendo recusada por onde paravam, constantemente empurrada até chegar a Portugal, de onde não tinha meios para avançar mais. Antes das malditas armas e o fanatismo que os obrigou fugir do seu lugar, das suas raízes, para começar tudo de novo, a mãe do Omar trabalhava numa farmácia e o pai era empregado bancário. Não eram ricos, mas tinham o suficiente para viverem confortavelmente e felizes. Mas as malditas guerras são cruéis, sobretudo para os inocentes e frágeis, e foi assim que uma criança que vivia a milhares de quilómetros, num país com hábitos, língua e culturas tão diferentes, chegou à escola daquela pequena vila.

    Nas primeiras semanas em solo português, sobreviveram graças a uma organização de apoio a refugiados, enquanto procuravam emprego e um lugar para viverem. Percorreram dezenas de aldeias, vilas e cidades e perderam a conta do número de portas onde bateram.

    Mas num país, onde a maior celebração anual é o nascimento de uma Criança num curral por não ter sido concedido melhor abrigo aos seus pais numa terra onde eram forasteiros, foi ainda maior o número de portas fechadas a outro casal com uma criança do sexo masculino, curiosamente fugidos de terras que não ficam muito distantes dessa onde, há dois mil anos, a Sagrada Família também teve que fugir da sua terra para salvar o Filho do rei Herodes. «Viste-me nu e vestiste-me; Tive fome e deste-me de comer.» Bem prega Frei Tomás, pois num lugar onde todos rezam estas palavras, ignoravam-nas na presença de Omar e seus pais que não tinham mais para onde ir, pois o próximo país ficava a milhares de milhas do outro lado do imenso oceano. «Ficámos por aqui, alguma solução surgirá.» decidia o chefe daquela família ao mesmo tempo que tentava serenar a esposa e o filho.

    Depois de conseguir a equivalência da sua licença de condução, o pai acabou por encontrar emprego como camionista. O salário não dava para o conforto a que vinham habituados antes da guerra, mas já havia algum sustento. No entanto, a adaptação continuava difícil, sobretudo para o pequeno Omar, que não tinha feito um único amigo desde que se meteram num barco frágil, com vinte vezes o número de passageiros que tinha capacidade para transportar, e aventuraram-se naquela arriscada travessia até à costa do outro lado do Mediterrâneo.


    A data da reunião na escola chegou e o discurso da diretora foi encaminhado para os comportamentos racistas e xenófobos que caíam sobre aquela criança a quem os pais salvaram do terror da guerra. Fugiram do seu próprio país para suportarem, não apenas as saudades, mas também a dor de saberem que, muito provavelmente, nunca mais poderiam lá voltar, nunca mais iriam pisar o chão pátrio, nunca mais estariam numa terra que fosse sua, seriam estrangeiros todo o resto das suas vidas.

    Era doloroso sentir esta realidade, mas seria pior não estarem longe das armas que, todos os dias, tantas vidas de inocentes roubavam. Algumas podiam ser as de amigos ou familiares seus. Mas nas notícias não havia como saber quem eram, apenas quantos eram, como se as vítimas da guerra tivessem números e não nomes. Tinham conseguido escapar daquele terror, mas tinham dificuldades em proteger o filho desta nova guerra num continente que se diz viver uma época de paz.

    Após uma conversa com estes pais, preocupados com esta nova tentativa de colocar o filho num ambiente onde ele pudesse crescer e aprender, sendo tratado como todas as crianças merecem, a diretora estava alertada para esta situação que se verificara em várias escolas que ele já tinha frequentado, onde raramente repetia dois períodos escolares, aumentando assim as dificuldades de adaptação, não apenas para o aluno mas para toda a família.

    A reunião podia ter corrido melhor. Alguns comentários, em parte promovidos pelo facto de se realizar após o jantar e há sempre quem a essa hora já não esteja a falar sozinho: «que vão para a terra deles!»; «rua com essa gente!»; «ai deles se nos vem tirar o sossego!».Apesar destas opiniões, vomitadas por um ou outro apedeuta e logo abafadas pela sensatez dos restantes, ainda que em alguns casos apenas em teoria, no final todos saíram preparados para acolher os novos vizinhos e, sobretudo, para orientar os filhos a tratar bem o novo amigo que ia chegar à escola quando as aulas retomassem.

    Na semana seguinte, na turma do quarto ano, todos queriam fazer par na carteira com o recém-chegado. Quando ele disse que se chamava Omar, quase recebeu aplausos e todos disseram que tinha um nome bonito. Não só o nome, mas também gostavam das roupas, roupas que lhe tinham sido oferecidas em Portugal e qualquer outro menino podia vestir: «ficam-te bem essas cores.» e o cabelo, que também podia ser o cabelo de qualquer outro menino daquela turma: «cabelo bonito, tão brilhante...» e os olhos: «olhos lindos, escurinhos, parecem azeitonas...»

    No recreio, todos queriam ser da equipa do Omar, todos lhe passavam a bola, deixaram-no marcar um penaltie que o guarda-redes adversário defendeu, contra a vontade dos restantes companheiros da brincadeira que se zangaram com ele e até obrigaram a repetir, indo outro menino à baliza para garantir que desta vez a bola batia mesmo nas redes. «força, Omar.»; «boa, Omar.»; «grande golo, Omar.» e todos festejaram, menos o Omar.

    Na hora do lanche, o Omar trazia um pão com queijo e uma maçã e os outros meninos queriam comer junto dele e dar-lhe a provar as coisas que as mães portuguesas sabem colocar na marmita dos filhos, tais como pão com queijo ou fiambre e peças de fruta como peras, bananas ou maçãs!

    Os dias passavam e o Omar era tratado como uma estrela pelas outras crianças que, chegadas a casa, a primeira pergunta dos pais era se tinham tratado bem o menino sírio, ou o menino escurinho, e os filhos respondiam que eram os melhores amigos e brincavam muito com ele.

    Quando o Omar respondia acertadamente a uma pergunta da professora, havia palmas na sala, assim como nas provas de avaliação, em que não necessitava de ter uma nota muito alta para receber os parabéns da turma inteira: «boa Omar, eu sabia que eras capaz.» «estás a ver, Omar, tu até és inteligente!» ou pior ainda: «se nós conseguimos, vós também conseguis!» como se as notas do Omar servissem para avaliar um povo e não apenas um menino que só queria andar na escola e ser tratado como os outros, também todos diferentes uns dos outros, o que não os impedia de serem tratados como iguais.

    Se o Pedro era o mais gordo, o Jaime era ruivo e tinha sardas, a Catarina tinha as pernas e os braços magrinhos e era a mais alta da turma, a Clara era a que tirava sempre as melhores notas e ninguém lhe batia palmas, o Artur gaguejava, a Cristina tinha marcas de uma queimadura num braço, a Milene tinha vindo recentemente da França e tinha sotaque francês bem mais longe do português do que o do Omar, o João era tão pequeno que media pouco mais do que a cintura da Catarina, porque só ele era tratado de forma diferente?

    Todos tinham as suas particularidades físicas e intelectuais e brincavam com isso, em certas alturas até se arreliavam. Mas era de vez em quando, enquanto o Omar, ainda que carinhosamente, era o menino sírio todos os dias.

    Ele não se escondia das suas origens. Sofria por ter familiares num país que mais ninguém na sua turma sabia apontar no mapa, um país que ele próprio quase não tinha nenhuma memória, e viviam no meio do medo e do terror de onde ele fugiu ainda no colo dos seus pais. Não tinha orgulho nem vergonha, era sírio e pronto. Era um menino saudável, tinha pais que o amavam e isso devia ser suficiente para ser feliz. Tinham-lhe transmitido aquele patriotismo na medida certa, sem exageros, com respeito pelos mesmos sentimentos de outros meninos em relação à sua pátria, qualquer que ela seja.

    Se na sua escola uns são franceses, outros suíços, podem ter sardas, ser baixos ou altos ou gordos ou magros ou loiros ou encaracolados, e não há mal nem bem algum nisso, e não estão constantemente a lembrar-lhes: «que sardas lindas!»; «falas tão bem francês!»; «ficas tão lindo por seres magrinho!»; «ficas tão lindo por seres gordinho!»; «és tão engraçado quando gaguejas!», porque razão não havia um dia em que ele não fosse tratado de forma diferente?

    Os pais não lhe faziam muitas perguntas sobre os amigos na escola. Não porque estivessem seguros de que ele era bem tratado, mas era só para não o lembrar dos tempos em que tinha sido dolorosamente rejeitado. No entanto, preocupavam-se muito e estavam atentos.

    Ao contrário das escolas anteriores, nesta, quando o deixavam junto à entrada, os amigos vinham logo ter com ele e, quando o iam buscar, nunca o encontravam sozinho. As notas não eram excelentes, mas estavam na média da turma. Notavam também que os pais das outras crianças não os evitavam. Por vezes parecia mesmo que até lhes davam atenção especial, mas isso podia ser impressão por causa da diferença de tratamento na vila anterior, onde nem uma saudação lhe retribuíam.

    Mas os tempos passavam e já no terceiro período, notavam que o Omar chegava a casa quase em pânico. Mas não desabafava e os pais não compreendiam os motivos daquele estado. Mal comia, deixara de gostar de brincar com os vizinhos e as notas baixavam.

    «Que se estará a passar com o Omar?» questionava o pai.

    «Vou começar a estar mais atenta. É algo na escola, não pode ser outra coisa. Talvez um amigo, algum professor ou outro funcionário.» supunha a mãe.

    Sempre que investigava, não encontrava nada que o pudesse deixar naquele estado. Até que o final do ano letivo se aproximava e a diretora chamou os pais para falar da diminuição de rendimento do menino. Não percebiam como é que ele, quando chegou, não apenas acompanhava os colegas como até superava grande parte deles, e no último período não aprendia da mesma forma e corria o risco de ter que repetir o ano.

    Naquele dia, durante o jantar, tentaram perceber o que se passava. O Omar não queria preocupar os pais. Não queria sentir a culpa de mais uma mudança de casa, ainda por cima, eles estavam ambos empregados, ele motorista de camião, apesar de ser funcionário de um banco antes de fugir para a Europa, e a mãe trabalhava numa empresa textil, uma profissão também diferente da que tinha no seu país.

    Apesar da difícil adaptação, tudo devia estar a dar certo. Mas não estava e o Omar tentava arcar com aquele peso sozinho para não fazer sofrer os pais que, percebendo que o seu menino estava em pânico, insistiram para ele desabafar:

    «Conta-nos Omar. Já passámos muito todos juntos e é assim que vamos estar sempre que alguém desta família necessitar. Conta-nos o que te está a afligir.»

    «Não é nada.» respondeu o menino. «Desculpem. Eu vou estar mais atento nas aulas e estudarei muito a partir de agora. Eu quero passar para o quinto ano e vou conseguir.»

    «Mas porque estás assim? Custa-nos ver-te triste.» insistiu, desta vez, o pai.

    O menino sentiu que não conseguia continuar a esconder que algo o feria e derramou uma cascata de lágrimas. Depois de alguns minutos sem se escutar uma palavra, com os pais, ainda mais preocupados, à espera que ele conseguisse falar, desabafou:

    «Não suporto mais isto. Na outra escola eu ainda me podia defender quando me insultavam, mas aqui não. Aqui não me insultam, mas também não me aceitam. Fingem, tentam, mas não me olham como um deles. Não percebo porque me veem diferente? Eu só quero ser o Omar, tal como o Pedro é o Pedro, a Catarina é a Catarina, o Hugo é o Hugo, a Milene é a Milene... Eu sei que sou estrangeiro. Mas que importância tem isso? Eles também não são todos iguais nem nasceram todos no mesmo país. Não consigo compreender. Ainda que estejam a tentar ser meus amigos, não conseguem. Tratam-me bem, mas é tudo falso. Não quero ser diferente. Quero os mesmos desafios, os mesmos obstáculos e nem me importo de nunca ganhar um jogo. Só quero as mesmas regras dos outros.


autor: Tó de Porto d'Ave

sábado, 20 de março de 2021

Refúgio


Refúgio

As pedras destas escadas, manchadas de tons de sombra,
Rompidas de tão pisadas, rompidas de tão rompidas,
Doridas da solidão, de quem se abriga nesta penumbra,
Humedecidas das lágrimas, pelo tempo escurecidas.

Moram tormentos e melancolia, no musgo e nas folhas caídas,
Estendidas no chão marcado, com cenas de agonia e pesar,
Tecendo um tapete negro, bordado de amarguras escondidas,
Daqueles que fogem ao mundo, e sentam-se aqui a chorar.

Refugio-me na paz deste lugar, acolhedor mas tão sombrio,
Junto ao lago sinistro, onde se trocam gritos por melodias,
Que chegam do chafariz, em sons mais leves que o silêncio.

Estou no meio do nada, protegido da iniquidade e da vileza,
Recebo dos braços do vento, o aroma fresco e afável das tílias,
E aqui nada temo, estou no meu castelo, na minha fortaleza.

(Tó de Porto d'Ave)



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Ida à Romaria - 14º capítulo (último capítulo)

 

Ida à Romaria


XIV



    Depois daquele repasto levantámo-nos e reparei que entretanto fez-se noite. Mas isso não fazia diferença nenhuma, pois luz era coisa que ali não faltava. Descemos mais uma vez a escadaria até ao terreiro dos divertimentos, que atravessámos com dificuldade porque àquela hora ele estava ainda mais à pinha de gente do que no final da tarde. Olhem que se mais pistas e carroceis houvessem, dava para todos ganhar a vida, tal era a multidão que não deixava um lugar de vago naqueles carrinhos, aviões, cadeirinhas, girafas e cavalinhos, tudo iluminado com lâmpadas de mais cores do que as do arco-íris, música alta a tocar e em menos de um minuto, terminavam uma volta para trocar de passageiros.

    Tendas de matraquilhos e outros jogos eram umas a seguir às outras, mas mesmo que a gente quisesse jogar, não adiantava, porque não havia um lugar que estivesse vago. Jogava-se também a sorte e ganhavam ursos ou bonecas que ofereciam às raparigas e mais à frente, tentavam ganhar prémios através da pontaria com espingardas de pressão.

    Depois de largos minutos aos encontrões com gente de todas as idades, finalmente os nossos pés pisaram o cimo do arruado. Com a arcaria toda iluminada, até parecia que estávamos a entrar num túnel de várias cores e muita luz. Afastei-me uns passos, para espreitar um grupo muito animado que me estava a deixar curioso, e reparei que no meio daquela roda enorme cantava-se ao desafio ao som duma concertina. Descemos pelo meio das tendas que ocupavam ambas as bermas e junto da escadaria que dava para o terreiro dos melões, passámos perto de outro grupo de cantadores, e aqui achei piada por ver uma mulher, sem tento na língua, a dar forte noutro cantador, que ficava bem embaraçado com o povo à volta que o atiçava e ria-se ao som da música e do tinto que dançava na malga de mão em mão. Um homem, que tenho a certeza que àquela hora já nem sabia de que freguesia era, até me ofereceu um gole, que recusei com a desculpa do ácido úrico!

    Dali já se avistava a praça onde duas bandas de música atuavam em despique. Chegámos lá e fiquei embasbacado. Eu já tinha visto aquela praça de dia, mas não podia imaginar como ela ia ficar toda iluminada à noite. Só visto como aquele baldaquino estava lindo, com luzes brancas a contornar todas as esquinas. Se alguém naquela festa estava realmente vestido de gala, digo-vos que era aquele monumento! Ficámos a assistir a um espetáculo digno de se ver e ouvir. Os músicos eram tantos que quase não cabiam em cima dos coretos de onde saiam aqueles sons que encantavam uma multidão que preenchia cada palmo do recinto. No final, as bandas aplaudiram-se uma à outra, desceram para a praça onde tocaram a última música da noite, despedindo-se da romaria enquanto a romaria se despedia delas com palmas que não tinham fim.

    Entretanto bateram as doze badaladas e o espetáculo de pirotecnia que o compadre falava e nos prendeu naquele lugar maravilhoso até àquela hora, tardou poucos minutos para começar. Naquela noite o céu estava cheio de estrelas. Aposto que estavam lá todas, como se tivessem combinado vestir as roupas mais brilhantes para ver o fogo da romaria. Também a lua se aproximou mais do que o costume. Meus amigos, a noite estava linda, mas não demorou muito para que esse brilho fosse ofuscado pelo esplendor que se seguiu naquela praça.

    Aquilo abriu com três estrondos que, sem avisar, estouraram no ar, despertando toda a multidão para uma sessão como eu nunca vi. Aliás, nunca vi nada que se pudesse sequer comparar. O meu compadre disse que aquilo era fogo preso, mas eu só sei dizer que vi umas ventoinhas e rodas de bicicletas a circular e a chapinhar faíscas de todas as cores. Quando parecia que não ia haver mais nenhuma surpresa, eis que no meio daquele espetáculo de luz e fogo, cai um pano com a imagem da Virgem de Porto d’Ave com o Menino no colo. Era um altar lindo. A multidão, encantada, batia palmas, quando noutro apetrecho surgiram letras a arder onde se lia: "Avé Cheia de Graça".

    Mas olhem que ainda não era nada comparado ao que faltava ver e ouvir. Bombas, foguetes, girândolas, balonas e outras coisas que eu nem sei que nome têm, mas vos digo que tudo que alguma vez foi inventado na arte da pirotecnia, ali via-se a sair de toda a parte: por trás dos muros, do lago ao centro da praça, nas costas do baldaquino, da escadaria que descia para a igreja subiam de ambos os lados uns foguetes que deixavam rastos de luz e cruzavam-se no ar. Daqueles céus parecia que chovia umas vezes ouro, outras vezes prata, vermelho, verde, amarelo e de todas as outras cores que há no mundo e olhem que se aquela sessão todo não durou uma hora, vos digo pela minha honra que bem perto lá andou.

    Foi um dia único e já várias vezes dei graças a Nossa Senhora do Porto d'Ave por ter aparecido o compadre de Vilarinho. Encontrá-lo no meio duma festa com milhares de pessoas, não foi apenas sorte. Ali houve mais qualquer coisa e se não fosse isso, eu tinha perdido aquele espetáculo que terminou com uns estrondos tão grandes e todos seguidos, que tenho a certeza que até o monte da Senhora da Graça tremeu.

    Estava assim encerrada a romaria daquele ano. A multidão batia palmas durante muito tempo e começava a retirar-se.

    O meu compadre fixou o olhar em mim sem dizer uma palavra, como se estivesse à espera que eu comentasse o que acabávamos de presenciar. Eu lá lhe disse o que ele esperava ouvir:

    - Foi uma grande sessão de fogo, sim senhor! O compadre tinha razão naquilo que dizia. Nunca vi uma sessão de fogo que possa pedir meças com esta. Até me sinto em dívida com vossemecê!

    Ele, sem falar, acenou com a cabeça e exibiu um sorriso, como quem diz que nunca falha. Era muito tarde, passava já da uma da madrugada e, tanto eu como a minha Jacinta, não estávamos habituados a tantas horas sem ver a cama. Mas digo-vos que mesmo cansado, nem por um segundo me arrependi de ter ficado ali até àquela hora.

    A festa tinha chegado ao fim.

    Enquanto esperávamos pelo nosso carro de praça, apreciei a multidão a vagar, até que quase só restava gente que percebi que viviam por ali. Todos se conheciam. Notava-se que se tinham divertido muito durante aqueles nove dias, mas também tinham trabalhado e contribuído para realizar aquela festa sem igual, uma festa que não se faz sem muita gente a trabalhar para ela. Era visível algum cansaço, mas mais evidente era uma grande satisfação de quem pertence a uma terra que gosta de receber bem e tinham conseguido fazer isso como eu nunca senti noutro lugar. Só visto como nos fazem sentir bem numa terra que não é nossa!

    Vinham cada vez mais, homens e mulheres, rapazes e raparigas. Eram de todas idades e juntavam-se no mesmo grupo, cada vez maior. Brindavam com copos de cerveja, cumprimentavam-se, abraçavam-se como se estivessem a comemorar uma vitória ou uma conquista. Falavam da romaria, só da romaria, de toda a romaria, como se já sentissem saudades dela. Falavam do que correu bem, do que queriam melhorar e percebi que já faziam planos para o próximo ano.

    Mas o que me agarrou mais a atenção, foi a expressão daquelas pessoas que vivem num lugar tão maravilhoso e com tanto para dar a quem os visita. Daqueles que não tinham pressa de abalar daquela distinta praça em frente ao baldaquino iluminado, como se se recusassem a aceitar que a romaria tinha chegado ao fim, trago os seus rostos bem gravados na minha memória. Eram rostos que mostravam o orgulho dum povo, um orgulho pelo seu santuário, pela sua romaria, pelas suas tradições.

    Eles sabiam que quando voltassem a acordar, já não seria romaria, mas continuaria a existir Porto d'Ave e tudo o resto estaria igual. Nós voltávamos para as nossas casas, mas eles continuavam lá, no dia seguinte, na semana seguinte, durante o ano inteiro. Podiam voltar a beber na Fonte do Chinês, ouvir o carrilhão de sinos, o órgão de tubos, ser acariciados pela brisa do rio Ave e respirar o aroma das tílias, muito mais agradável ali do que em qualquer outro lugar do mundo onde existem tílias! E podiam continuar a pisar aquele chão, olhar e tocar em cada pedra daqueles monumentos. Por isso todos aqueles rostos sorriam e todos aqueles olhos brilhavam…como brilhavam! Porque o maior motivo daquele orgulho estampado em cada olhar, não era outro senão por pertencerem a esta terra bendita que vos tenho falado, que se chama Porto d'Ave.




FIM

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Ida à Romaria - 13º capítulo

 

Ida à Romaria


XIII


    A confusão de gente a passar à volta do restaurante era enorme, mas durante todo aquele santo dia fomo-nos habituando à multidão e até conseguimos repastar o nosso bife como se houvesse sossego, sem que a conversa se desviasse um segundo daquela festa linda e grandiosa. O meu compadre contava que muito mais há para ver na romaria do que aquele domingo nos mostrou. Emocionou-se enquanto descrevia a procissão de velas, na noite de sexta-feira, uma cerimónia que deixa toda a gente arrepiada durante o mesmo percurso da procissão de anjinhos, onde participam muito para cima de dois mil devotos que seguem o andor iluminado da Senhora do Porto d'Ave. Todos transportam uma vela acesa na mão e é tanta gente que a vista não consegue alcançar ao mesmo tempo o início e o fim daquele enorme rio de fogo.

    Falou-nos de outra procissão que nunca perde, com um percurso bem mais curto, em honra da Senhora da Boa Morte. Realiza-se no domingo anterior ao dia principal, no final da segunda novena, e sai da igreja da Senhora do Porto d'Ave terminando na capelinha da Senhora da Boa Morte, a tal que também tem um altar todo pintado a ouro.

    Nesse domingo, de seguida à procissão, o povo vai até ao terreiro dos divertimentos para apreciar os animais que os marchantes exibem antes de os enviarem para o matadouro. Gabava-se que corre todas as feiras da especialidade, por isso pode testemunhar que em poucas se podem apreciar animais com aquela qualidade. Dezenas de bovinos bem gordos são apresentados ao povo com tanta pompa, que até parece que têm vaidade por serem escolhidos para a romaria de Porto d'Ave. Falou ainda de desfiles de cavalos, póneis e charretes, de concentrações de jipes, bicicletas, motorizadas antigas e muito mais.

    Fiquei a saber que ao todo são nove dias de festa, que começa com o Brinde da Romaria, sempre à meia-noite em ponto da sexta-feira antes da primeira novena. Nesse momento, toda a gente se reúne na praça das músicas para levantar o cálice de licor e brindar ao início de mais uma romaria e é aí que a iluminação é ligada ao som e luz de um pequeno espetáculo de pirotecnia. A partir dali, aquele recinto não volta a dormir até ao fogo de encerramento que ainda nos estava a segurar lá.

    Entre o brinde que abre a romaria e o fogo que nove dias depois a encerra, há um festival folclórico com ranchos de regiões de todo país, teatros, desfile de moda, música popular, festas para os mais jovens com muita música onde o baile só termina com o sol já bem alto, sobretudo nas duas últimas noitadas, sexta-feira e sábado, em que a moçarada antes de se deitar se chega a misturar naquela praça com os fiéis que vão assistir à novena. Percebi que ele era dos que não perdia pitada daquela da romaria e eu, enquanto o escutava, não sei mesmo se não tenho o pecado capital da inveja para confessar.

    A conversa esticava, o bife encolhia, até que os pratos ficaram limpos. Foi quando comentei:

    - Isto é realmente uma iguaria de deixar a gente satisfeita!

    - Isso se calhar até é dizer pouco. - Respondeu-me o meu compadre. - Isto é de comer e chorar por mais. Iguaria assim, só mesmo na romaria!

    - Só na romaria? Então no resto do ano não se servem bifes como este?

    Lá começou ele a puxar dos seus galões. Aquele e a minha Jacinta juntos, ela a falar das missas e procissões e ele das farras e tradições, olhem que não deve ficar uma linha por dizer sobre aquela grandiosa romaria:

    - Sabe compadre, fora da romaria não há gado desta categoria para abater. Os melhores bovinos são escolhidos para serem servidos nestas centenas de mesas espalhadas pela festa, sejam eles de raça minhota, barrosã ou até mirandesa. O que importa é que sejam bem gordos e nunca com menos de meia dúzia de anos. Depois temos a competição entre os marchantes, que é tal que quem sai a ganhar é a qualidade. Por fim, serve-se acompanhado com este molho de cebolada e batatas fritas aos palitos. O resultado estava aqui na nossa mesa, com este paladar sem igual como nós bem vimos, ou melhor, como nós bem comemos e que bem que nos soube!

    - Essa parte já percebi, mas depois há este tempero especial e é aqui que está o segredo!

    - Qual segredo, qual quê? - Interrompeu-me – Aqui, o único segredo é ter produtos de qualidade e a receita está à vista de todos, pois o trabalho dos cozinheiros é feito na frente de quem quiser ver e aprender. Os bifes, sejam do vazio, do lombo ou da rabada, desde que tenham a gordura nesta cor já bem carregada, são fritos, não muito fritos para não perder o paladar ao que são, em óleo ou azeite, ou até as duas coisas. De tempero, não podem levar mais que sal, alho e pouca pimenta. A cebolada, este pitéu que lhe dá o toque especial, é preparada no mesmo molho do bife e aqui acrescentam-se umas gotas de vinagre. Não há segredo nenhum, a não ser a qualidade da carne e a mão de quem prepara este manjar digno da mesa dum rei. Como vê, é simples esta receita que já tem dois séculos ou mais, e é a culpada de dezenas de animais, todos os anos por esta altura, terem a honra de ser bois de romaria.

    No final desta receita culinária, a minha Jacinta, que escutava atentamente o nosso compadre, tirou da cesta a dúzia de cavacas que tinha comprado na afamada doceira de Cimo de Vila, que afinal eram quinze! Ela comentou que é normal as dúzias daquela doceira nunca serem de apenas doze. Colocou-as na mesa, dizendo que uma jantarada daquelas merecia uma sobremesa. O compadre logo acrescentou que para se poder dizer com verdade que se comeu bife de romaria, na sobremesa não pode faltar melão de casca de carvalho. Sem ser necessário a gente pedir, o homem que nos atendia chegava à mesa com quatro fatias numa travessa, lembrando que era tradição. Mal olhou para elas, o compadre fez um gesto em sinal de aprovação, deu a primeira trincadela e comentou:

    - Este é mesmo de romaria, é dos que não fica a boiar à tona se o atirar ao tanque. Melão com este pique é iguaria rara de encontrar!

    E lá teve que vir mais uma caneca para as cavacas, outra para o melão e outra para nós! A minha Jacinta, a cada vez que o compadre de Vilarinho entornava tinto na minha tigela, olhava para mim com ar arreliado, mas não dizia nada, como se estivesse a somar tudo e guardar a reprimenda para mais tarde.

    E foi assim que aprendi que os melões, para serem saborosos como aquele, tem que bater no fundo do tanque cheio de água. Já os que ficam na tona, às vezes até os porcos torcem o focinho quando lhos entornam na pia. Caneca vazia, de melão só ficaram as cascas na travessa, conversa em dia, pedimos a conta, que o meu compadre agarrou e não queria partilhá-la, coisa que nem eu nem a minha Jacinta aceitámos, até que ele lá se convenceu que tinha mesmo que ser contas à moda do Porto, ou melhor, à moda de Porto d'Ave. Foi então dividida a despesa, porque a vida custa a todos e assim é que está correto.


continua:

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Ida à Romaria - 12º capítulo

 

Ida à Romaria


XII


    Sem tossir nem mugir, comecei a descer aqueles degraus, a praça mais bonita que já se viu voltou a ser pisada pelos nossos pés,  e lá fomos em direção à igreja que fica lá no fundo. Quando chegámos ao adro, já lá estavam muito alinhadinhos, os cavalos brancos,  os músicos e os escuteiros a marchar sem sair do mesmo lugar, ao som da música da fanfarra. Os andores cheios de flores, conforme iam chegando eram colocados no adro. Apenas o da Senhora do Porto d'Ave não ficou fora da igreja. Atrás dele, juntamente com a multidão, entrámos nós para arranjar lugar num dos bancos de madeira.

    Apesar de ter lá estado poucas horas antes, voltei a ficar pasmado a olhar para aquelas paredes, aqueles tetos, os altares dourados, os painéis de azulejos, enfim meus amigos, ainda bem que voltei lá, porque se tivesse visto aquilo apenas uma vez, eu ia duvidar se não foi em sonho que aquelas imagens ficaram gravadas na minha memória e ia ter dificuldade em acreditar que um monumento assim pudesse existir neste mundo.

    Passados uns minutos fez-se silêncio e começou a última cerimónia religiosa da romaria. Ali estávamos nós no meio do povo que, tal como na novena da manhã, não cabia todo lá dentro. Quando terminou, deixámos cair mais uma esmolinha pelas alminhas do purgatório no rasgo duma caixinha, voltamos a olhar à nossa volta para apreciar cada palmo daquelas paredes e tetos, saímos e voltámos a subir a imensidão de escadas para ir à procura da camioneta da carreira. E foi no cimo do arruado, ambos muito cansados e com pena de ver a festa a ficar para trás, que encontrámos os compadres de Vilarinho que nos abraçaram surpreendidos por nos verem ali, porque nos conhecem bem e sabem que tanto eu como a minha Jacinta, nunca fomos de romarias.

    - Então por aqui, compadre Manel? - Perguntava ele, surpreendido por me ver, enquanto as mulheres mostravam uma à outra as compras que tinham feito. – Olhe que o meu amigo era das poucas pessoas que eu esperava encontrar na romaria.

    - Olhe que lhe digo tal e qual como vossemecê, pois nem eu contava cá estar. Nós viemos à novena e depois é que resolvemos comer por aqui e ficar para ver a procissão. E olhe que em boa hora o fizemos, porque isto não era espetáculo da gente perder. Agora vamos embora que se faz tarde.

    - Não me diga que se vai já embora? Olhe que se ficou encantado com a procissão, lhe garanto que com o fogo da meia-noite é que vossemecê vai ficar baradinho das suas vistinhas.

    - Oh, isso fica muito tarde e fogo a gente vê na nossa festinha da Senhora das Candeias, que também não é coisa pouca.

    - Ó amigo compadre, vossemecê nem me diga uma coisa dessas! Olhe que sessão de fogo como a da romaria, ninguém vê desde o tempo do saudoso Belo Fogueteiro. E já lá vai mais de meio século que Deus chamou aquele nobre homem para junto de Si. O que nós vamos fazer é comer um bife num restaurante, porque esta gente também tem que ganhar a vida. De seguida, vamos até à praça ouvir as bandas de música ao despique até à hora do fogo e no final da festa, entramos num carro de praça que nos leve aos nossos lares. Bora lá aproveitar a vida enquanto o tempo nos permite. O Inverno está aí à porta e quando ele chegar é que a gente não tem outro remédio senão enfiar-se dentro de quatro paredes!

    A minha Jacinta ainda barafustou, dizendo que isso ia dar a des’horas, lembrou que bife ainda tinha na bolsa do que sobrou ao almoço e o que queria mesmo era jantar uma sopinha no conforto da nossa casinha. Além disso, queria ver se a bicharada estava toda recolhida. Mas recolhida e com as pias cheias, tínhamos nós deixado pela manhãzinha e mesmo que arredássemos a casa, pela hora a que lá chegássemos, o Tyrone, um rafeiro manco em duas patas e cego dum olho, que a gente lá tem desde o dia em que o abandonaram à nossa porta, seria o único ainda acordado à nossa espera, pois toda a galinácea e rebanho já estaria a fazer meia-noite.

    - Pronto, perdido por dez, perdido por vinte! - Responde a Jacinta, acabando por se convencer que ainda não era desta que se ia embora.

    Mas lá vai a verdade, ela estava mais entusiasmada com aquela festança do que eu, só não queria admitir a ideia que ainda era mulher para andar em noitadas de romaria. E lá resolvemos acompanhar os nossos compadres.

    Atravessámos um recinto enorme, cheio de carroceis, pistas de carrinhos e aviões, pessoas sentadas numas cadeirinhas penduradas por correntes voavam rentes à nossa cabeça de modo que a Jacinta até deu um grito à conta de tamanho susto que apanhou. Comboio fantasma, poço da morte, barracas de matraquilhos, de tiros e outros jogos de sorte e azar, e o espaço que sobrava entre estes divertimentos todos estava tão à pinha de gente, que a Jacinta, que até não é muito dada a grandes intimidades fora das portas de casa, quis ir de braço dado comigo com medo que eu me perdesse!

    Conseguimos furar entre a multidão e chegámos a umas escadas de pedra que subimos até ao mesmo local onde entrámos pela manhã, o tal terreiro do Lago. Dirigimo-nos a um restaurante que o meu compadre escolheu por ser de confiança dele, sentámo-nos e logo apareceu um homem que tirou uma lapiseira de trás da orelha, rasgou um pequeno pedaço da toalha da nossa mesa, onde começou a escrever enquanto falava assim:

    - Ora então vão ser quatro bifes para esta mesa, não é verdade?

    De bifes ainda eu arrotava e na bolsa da minha Jacinta havia o que sobrou do almoço, mas antes que a gente desse opinião, o meu compadre adiantou-se:

    - Pode servir quatro bifes da rabada, dum animal barrosã bem velho e gordo, que não há presigo melhor no mundo. Ah, e não faça cerimónia no molho de cebolada. Traga uma malga bem grande, que ela volta bem lambida para a cozinha!

    - Bifes comemos nós ao almoço. A mim, bastava uma sopinha. - Tentou a minha Jacinta, mas a resposta foi pronta.

    - Romaria é romaria, e isso de ter comido bife ao almoço não quer dizer absolutamente nada. Bife de romaria pode-se comer durante os nove dias da festa e até hoje ninguém enjoou! Portanto, vamos cumprir a tradição. Comemos aqui cada nosso bife e no final, uma fatia de melão de casca de carvalho!

    Bem, se o compadre estava assim tão decidido, a gente concordou e lá ficámos convencidos que íamos comer, outra vez, bife de romaria.

    A travessa não tardou a chegar, juntamente com uma caneca de verde tinto a substituir a que a gente tinha esvaziado enquanto dava corda à língua. Mas dar mesmo corda à língua, era um charlatão linguarudo em cima duma camioneta que estava no mesmo terreiro. Tinha um microfone pendurado ao pescoço e o raio do homem não se calou um segundo durante todo o nosso santo jantar: “e não paga cem, não paga cinquenta, não paga vinte, não paga dez... ora vejam lá onde é que já se viu? Por apenas uma nota de cinco, não leva um, não leva dois, não leva três...leva uma dúzia de pares de meias e ainda um guarda-chuva de vinte varetas e mais uma navalha para enxertos e mais isto e mais aquilo....” ainda bem que ficámos a uma boa distância daquela lengalenga toda, que aquilo era um vir’ó disco e toc’ó mesmo que se estivesse mais perto dos meus ouvidos, o bife não me ia cair lá muito bem!




continua:

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Ida à Romaria - 11º capítulo

 

Ida à Romaria


XI


    Repartidos entre toda aquela criançada e algumas pessoas já mais entradotas a representar quase todos os anjos e santos que há no céu, passavam os andores que, pelos dedos das duas mãos, não deu para os contar todos. Era a Senhora de Fátima, o S. Miguel, a Senhora da Boa Morte, a Senhora da Graça e cada vez insisto mais que aquilo merece mesmo ser visto. Todos enfeitados com flores de todas a cores e de quanta espécie há no mundo, mas flores de verdade, que naquela aldeia é tudo muito real. Era como se o mais lindo jardim estivesse a desfilar naquela estrada para toda a gente ver.

    Os maiores e mais pesados eram transportados por homens, uns mais jovens e outros nem tanto, e dava bem para perceber que o peso que carregavam não era tarefa para qualquer um. Já os mais leves vinham nos ombros de raparigas. O respeito e devoção era grande, tanto para quem participava como para quem, tal como eu e a minha Jacinta, apenas assistia.

    Mas o último de todos trazia ainda mais brilho e era sem dúvida aquele que espalhava mais respeito e devoção. Que imagem linda passava no meio da multidão, deixando toda a romaria em silêncio. O povo olhava, benzia-se, rezava, limpava as lágrimas, toda a gente emocionada e o caso não era para menos. Era Ela que se aproximava, com o seu manto azul e o Menino Jesus no colo, em cima dum andor enfeitado com flores azuis e brancas, transportado nos ombros de quatro homens, com opas nas mesmas cores das flores, enquanto outros tantos os acompanhavam à espera de os substituir quando estivessem cansados. De cada lado, marchavam três bombeiros com as fardas de cerimónia, capacetes na cabeça e machados ao ombro, ambos a reluzir. Tudo era grande em brilho, respeito e devoção, porque aquela que estava a passar ali, mesmo na frente dos nossos olhos, era a imagem da rainha daquela grandiosa romaria e daquele santuário de beleza nunca vista noutro lugar. Era a Nossa Senhora do Porto d'Ave!

    Logo atrás via-se a sair o fumo do turíbulo que um senhor abade abanava. O cheiro a incenso espalhava-se por toda a parte e o respeito da multidão aumentava. Os homens seguravam o chapéu junto ao peito e não havia uma alma viva que não estivesse de pé! Todos em silêncio, viam passar seis homens com opas vermelhas, que seguravam as hastes do pálio da mesma cor, que cobria o senhor arcebispo que transportava nas suas mãos uma pequena caixa de prata, onde estavam guardadas as Relíquias do Santíssimo Sacramento.

    O grupo seguinte também não passou despercebido. Duas dezenas de pessoas, mais coisa menos coisa, quase todas homens, cobertos com opas azuis bordadas com uma insígnia dourada muito bonita. Faziam duas filas e na frente de todos, com um cajado na mão com a parte de cima curvada em forma de caracol, vinha o moço que ofereceu a imagem da Senhora à minha Jacinta e depois levou-nos a visitar o museu.

    - Quem são aqueles? - Perguntei baixinho. Logo a Jacinta respondeu que era a Mesa da Real Confraria de Nossa Senhora do Porto d'Ave e acrescentou que só agora percebia que aquele jovem era, afinal, o juiz presidente da irmandade.

    Quando pela manhã, no final da novena, vi aquele jovem na sacristia, se soubesse da sua importância juro que nem me tinha atrevido a chegar perto dele, muito menos roubar-lhe aqueles minutos num dia tão atarefado. Mas ele, apesar de tantos afazeres, atendeu-nos com uma gentileza como se não tivesse mais nada com que se ocupar naquele dia. Só visto como fomos tratados pelo Juiz da confraria de Nossa Senhora do Porto d'Ave. Um verdadeiro cavalheiro. Os que o seguiam, com opas iguais à dele mas sem cajado,  eram, portanto, os confrades e confreiras.

    Ainda mais asseados, seguia um grupo que se via que eram pessoas importantes. As senhoras, de indumentária de cerimónia e cabeças saídas do cabeleireiro, tal como fez a nossa Beatriz no dia que deu a mão ao meu genro. Os cavalheiros não faziam pior figura. Todos de fato preto e camisa branca, só percebi que aquilo não era um uniforme quando reparei que traziam a cabeça descoberta e as gravatas não eram todas da mesma cor! Muito vincados, com os colarinhos engomados e nó de gravata apertado, suportavam o calor e com tanto ainda para subir e descer. Durante a passagem, sorriam e faziam curvaturas com a cabeça, ora para a direita, ora para a esquerda, cumprimentando o povo. Uma voz dizia que aquele grupo era a mais fina  prata da sociedade daquela terra enquanto por outra, escutei que eram todos presidentes. Para perceberem como é distinta aquela aldeia, vos digo que só presidentes, se não iam para cima de uma dúzia naquela procissão, vos digo eu que a coisa não foge muito dessa conta. 

    De farda mesmo igual, duas bandas de música, com instrumentos que até encandeavam de tão polidos que estavam, seguiam com os músicos tão afinados como alinhados e o espetáculo que nos davam, era lindo de ver e ouvir.

    Atrás destes, um grupo de romeiros da Irmandade de São Francisco de Assis entoava cânticos a Nossa Senhora do Porto d'Ave e era seguido por uma multidão que não tinha fim, que também caminhava a cantar, mas lá vai a verdade, aqui a afinação não merece os maiores gabanços. A minha Jacinta não perdeu a oportunidade de me atirar mais uma vez, que era ali, no meio daquele povo, que nós devíamos estar. Mas eu sei que lá no fundo ela também gostou de ficar a apreciar. Porque nestas coisas, quem vai na procissão só vê o povo, enquanto o povo é quem vê a procissão.

    Mal acabou de passar, apareceram novamente os cavalos brancos no fundo do arruado. Foi por pouco que não tiveram que abrandar a marcha para não esbarrar na cauda da procissão. Aquilo foi quase como uma sardinha a comer o rabo. Bastava ter mais meia centena de pessoas, e ia ser bem complicado desensarilhar a confusão que se ia dar!

    Ali ficámos a ver mais uma vez a procissão, que agora descia a estrada de regresso à igreja. Apesar dos homens e mulheres que carregavam os andores se mostrarem muito estafados e com o suor a escorrer no rosto, e também os presidentes já terem aliviado o nó da gravata, tudo o resto continuava com a mesma pompa com que tinha subido a estrada. Quando já se avistava o fim, a Jacinta, com aquele olhar de quem pergunta e responde sem pedir opinião, virou-se para mim e disse:

    - Manel, vamos descer estas escadas para nos despedirmos da Senhora. Depois, procuramos uma camioneta da carreira que nos leve de volta à nossa casinha.




continua:


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Ida à Romaria - 10º capítulo

 

Ida à Romaria


X


    A gente lá repastou aquela iguaria, mas a minha Jacinta nem de meia metade do bife precisou para ficar satisfeita. Já eu, para ajudar a empurrar tudo que tinha no prato, lá tive que pedir mais uma caneca do mesmo tinto, que também era pinga de se apreciar. Com o nosso vagar, até porque ainda faltavam mais de três boas horas para a procissão, lá fui saboreando cada garfada até deixar só algumas gorduras no prato. Olhem que muitas vezes me vêm os desejos que até fico ougado só de recordar o sabor do pequeno naco de rosca que comi depois de limpar aquele prato.

    Quando a rapariga voltou à nossa mesa, perguntou se a gente tinha gostado, ao que respondemos que estávamos satisfeitos e pedimos-lhe que fizesse o obséquio de nos trazer mais dois guardanapos de papel, que ela por amabilidade até os ofereceu, para embrulhar dois nacos de rosca com meio bife que tinha sobrado no prato da Jacinta, que lá para final da tarde sempre dava para prendar o estômago até à hora da ceia.

    Reparei que no final do bife, todos os outros comensais comiam uma fatia de melão de casca de carvalho. Numa mesa perto da nossa, alguém dizia que só assim a tradição fica completa. Nós resolvemos fazer igual, porque uma vez ali sentados, cerimónias não íamos fazer, até porque era tradição e as tradições são para se cumprir. E lá vieram as duas fatias daquele melão tão picante que até parecia que lhe tinham deitado pimenta. Foi comer até só sobrar a casca que ficou quase tão fina como uma folha de eucalipto. Depois da conta, que não foi nenhuma ninharia, mas quando a gente fica satisfeita até paga com prazer, saímos dali. Já com a merenda na cesta da Jacinta, demos lugar a outros clientes que faziam fila para entrar e nós fomos procurar uma sombra para fazer a digestão. Foi quando me levantei da cadeira que dei conta que o equilíbrio me falhava, de modos que até comentei que às tantas foi o molho de cebolada que me deixou tonto!

    - Foi a cebolada, Manuel Felismino, foi mesmo a cebolada, Manuel Felismino! Às tantas até foi o pão!

    A Jacinta desta vez estava tão brava que antes que a coisa piorasse, ouvi aquela reprimenda sem tugir nem mugir. Em silêncio, ela sempre com um olhar de quem não estava a gostar da minha forma de caminhar, fomos à procura dum lugar para descansar. Naquele dia não era fácil fazer uma sesta, tamanha que era a multidão, mas a verdade é que eu cheguei a passar pelas brasas à sombra duma tília, junto de uma das oito capelas em forma de favos das colmeias.

    Quando a hora da procissão se aproximou, acordei com um beliscão no nariz que, segundo me atirou a Jacinta, já me tinha chamado e beliscado várias vezes sem que eu parasse de ressonar, queixando-se que até passou vergonha com as risadas que algumas pessoas soltavam ao passar. Meio acordado e com a outra metade ainda a dormir, recebi a ordem para descer até à igreja para ver os preparos da procissão e depois seguir o itinerário, coisa que as minhas pernas me pediam para recusar, a modos que respondi:

    - Jacinta, sabes bem que eu já não sou o Manel que tu conheceste e as minhas pernas já não dão para procissões, que a minha passada não é a mesma de antigamente.

    - Ai Manel, se fosse só a tua passada que tivesse perdido a força de antigamente, que grande serventia ainda tu terias! Mas para o bife e quase meio almude de tinto, tiveste tu passada sem te queixares da idade. Bebesses mais na fonte do Chinês e menos no restaurante e tu ias ver que tinhas pernas para a procissão e muito mais. Ai homem do diacho, que são estes pecados que ainda te vão fazer passar uma boa temporada no purgatório! Mas fazemos então assim. Descemos estas escadas e vemos tudo a passar, com muito respeito como se fossemos atrás do andor de Nossa Senhora do Porto d'Ave.

    Lá se convenceu e descemos pelo meio daquela multidão até ao muro por trás da tal Fonte do Chinês. Ali arranjámos um lugarzinho que ficou de vago naquele momento que até parecia que o estavam a guardar para nós. Três bombas que quase me rebentaram os tímpanos, estouraram no ar e o som das fanfarras, lá no fundo da escadaria, ouvia-se cada vez mais alto. Era gente à pinha nas duas bermas da estrada. Quando a procissão começou a aproximar-se, fiquei pasmado com tanta pompa, tanto brilho e sobretudo, com tão grande devoção a Nossa Senhora do Porto d’Ave.

    Na frente do cortejo vinham quatro cavalos brancos a abrir caminho. Nunca vi cavalos com a elegância daqueles. Eram tão grandes que parecia que vinham a cavalo noutros cavalos. Vos garanto que a mais pequena daquelas quatro criaturas, não media menos de dez bons palmos desde as ferraduras até ao lombo. Montados neles, quatro cavaleiros fardados, com capacetes a brilhar com um rabo-de-cavalo espetado. Lá iam a marchar com autoridade pelo meio da multidão, que se afastava para as bermas e a ordem instalava-se ao som da fanfarra, que vinha logo a seguir à Cruz de Cristo acompanhada por duas lanternas transportadas por homens com opas azuis.

    Depois da fanfarra, com aqueles tocadores a fazer habilidades com a baqueta entre uma e outra pancada nos bombos, outros a tocar pratos, caixa, cornetas e demais instrumentos com nomes estapafúrdicos que eu nem sei repetir, seguiam duas filas de escuteiros que pareciam não ter fim! Os mais pequenos à frente e os maiores a seguir. Todos a marchar alinhadinhos, também comandados pelo som da fanfarra: tretrerum. ..trererumm. ..trererumm... Olhem que nem no meu juramento de bandeira, no Regimento de Cavalaria em Braga, nós marchámos mais alinhados do que aqueles escuteirinhos!

    Pelo centro da estrada, com uma pessoa em cada berma a segurar num cordão, seguiam mais de uma dúzia de bandeiras erguidas ao alto, com um santo ou santa estampado em cada uma. De seguida começaram a aparecer outras bandeiras, mas estas já não eram de santos. Cada uma representava uma instituição daquela terra: uma em xadrez, com a fonte do chinês que estava mesmo ali por baixo do nosso nariz, transportada por um jovem com uma camisola nas mesmas cores e que toda a gente olhava com bastante respeito, era da equipa de futebol de Porto d'Ave. As outras eram do rancho folclórico, dos grupos corais, do clube das bicicletas, enfim, também destas perdi a conta, até porque o que vinha a seguir é que tomou conta da minha memória quase toda.

    Mesmo na nossa frente, com coroas na cabeça e vestimentas de muitas cores, todos a reluzir, passavam mais de uma centena de anjinhos. Alguns meninos mais malandrotes, vinham fardados de soldados do tempo dos romanos e traziam uma espada ou uma lança e com elas, representavam mais do que a conta o papel que estavam a desempenhar. Eu sei que não devia, mas confesso que achei piada a um menino, até porque nas crianças tudo se perdoa, quando ele fazia cara da bravo e dava com a espada nas pernas de algumas pessoas que assistiam na berma da estrada!



continua:

20 de Junho 2021 - Dia Mundial do Refugiado

  Menino Sírio     Com as férias de natal quase a terminar, a diretora convocou a comissão de pais para uma reunião. O assunto era delicado....